Existe um tipo de corredor que não precisa de muita conversa na véspera de prova. Ele já sabe o que vai fazer: acorda cedo, toma o café, checa o tênis, verifica o chip. O ritual é silencioso, quase sagrado. E quando a Praça Nova da Pampulha aparece no horizonte com a lagoa refletindo o céu de março e a Igrejinha de São Francisco de Assis ao fundo, ele entende — de novo, como toda vez — por que escolheu esse esporte. No domingo, 29 de março, esse encontro está marcado. A Corrida Supermercados BH 2026 leva 20 mil atletas pras margens da Lagoa da Pampulha e entrega um dos percursos mais bonitos do calendário nacional. Não é a primeira vez. E quem já foi sabe que não vai ser a última.
A prova estreou em 2025 e entrou direto para a história como o maior evento esportivo de rua de Minas Gerais — 20 mil participantes na primeira edição, em março, na Praça Nova da Pampulha. Não foi sorte. Foi uma prova que chegou com estrutura, com identidade e com o endereço certo. A Pampulha não é só um bairro de BH. É o berço da corrida de rua mineira. É onde tudo começa e onde tudo acontece.
O lugar onde a arquitetura vira percurso
Pra quem chega de fora de BH, a primeira coisa que precisa saber sobre a Pampulha é que ela não é um bairro comum. É um capítulo da história da arquitetura brasileira. Em 1940, o então prefeito Juscelino Kubitschek queria transformar uma área ao norte da cidade — com uma lagoa artificial construída nos anos 1930 — numa grande área de lazer para Belo Horizonte. Para isso, chamou um arquiteto jovem e promissor chamado Oscar Niemeyer, recém-formado, que nunca havia construído nada daquela escala. O resultado foi inaugurado em 16 de maio de 1943 na presença do presidente Getúlio Vargas e mudou a história da arquitetura moderna no mundo.
Niemeyer projetou quatro edificações às margens da lagoa — um cassino, um clube náutico, uma casa de baile e uma igreja — com curvas, concreto armado e uma linguagem que nunca tinha sido vista antes no Brasil. A Igreja de São Francisco de Assis, carinhosamente chamada de Igrejinha da Pampulha, é a obra-prima do conjunto: abóbadas parabólicas, painéis externos de Cândido Portinari e jardins de Roberto Burle Marx. Era tão diferente de tudo que existia que a própria Igreja Católica se recusou a consagrá-la por quase 15 anos — consideravam aquelas curvas incompatíveis com o sagrado. Hoje é Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 2016 e o cartão-postal mais querido dos mineiros. O próprio Niemeyer resumiu a importância daquele projeto numa frase que ficou famosa: “A Pampulha foi o início de Brasília.”
Você vai correr na sombra de tudo isso. A lagoa à sua esquerda, a Igrejinha ao fundo, o Museu de Arte da Pampulha — que começou como cassino e hoje abriga uma das coleções de arte moderna mais relevantes do país — compondo o cenário.
Não é um percurso. É uma galeria de arte aberta, com 18 quilômetros de orla e a Serra do Curral como moldura no horizonte. E pra uma prova que pede esse nível de presença, o equipamento também precisa estar no lugar certo. O Short de Compressão Feminino Sport BR — cintura alta, seis bolsos estratégicos pra gel, chave e celular, tecido compressivo que sustenta a musculatura sem apertar — é o tipo de bermuda que some no corpo e deixa você pensar só na corrida. Nenhuma ajuste no meio do percurso, nenhuma distração. Só a lagoa, o vento e o pace. Garanta o seu aqui antes do domingo.
A Volta da Lagoa: o percurso que faz sentido
A Corrida Supermercados BH oferece quatro modalidades: caminhada de 2 km, corridas de 5 km e 10 km, caminhada Kids e o grande destaque da prova — a Volta da Lagoa, com 17,8 km contornando toda a orla da Lagoa da Pampulha. É o percurso mais completo e mais bonito do evento, e também o mais estratégico para quem está em preparação de temporada.
O percurso da Volta da Lagoa parte da Praça Nova — a Praça Geralda Damata Pimentel — e segue pela Avenida Otacílio Negrão de Lima, a grande orla da Pampulha. O asfalto é bom, o perfil é predominantemente plano, com ondulações leves que pedem atenção de pace mas não destroem as pernas. Ao longo do caminho, você passa pela Casa do Baile — outro projeto de Niemeyer, numa ilha artificial no meio da lagoa —, pelo Iate Clube da Pampulha com a arquitetura em forma de barco, e pelo Parque Ecológico da Pampulha, uma reserva verde de 150 hectares com trilhas, fauna e flora nativas do cerrado que convive com a orla de forma orgânica. O Mineirão aparece imponente no horizonte logo depois — e é quase impossível não desacelerar por um segundo só pra olhar.
O cronograma do dia começa às 7h00 com a abertura da arena. Às 7h50, aquecimento coletivo. Às 8h largam as corridas de 5K, 10K e 17,8K. É uma manhã de domingo que começa cedo e vale cada minuto de sono perdido.
2026: o ano em que BH ganha duas maratonas
Se você é corredor e ainda não colocou BH no radar pra 2026, esse é o momento. A capital mineira vai receber não uma, mas duas maratonas de 42K num intervalo de pouco mais de um mês — e os percursos não poderiam ser mais diferentes entre si.
A 1ª Maratona Oficial de Belo Horizonte acontece em 17 de maio de 2026, com largada na Praça da Estação e percurso que corta a cidade de ponta a ponta — do Barreiro ao centro histórico, passando pela Via Expressa, Avenida Tereza Cristina e Avenida dos Andradas. Uma prova que descentraliza a corrida da Pampulha e leva os atletas por bairros e avenidas que nunca tinham recebido um evento desse porte. A Vila da Maratona funciona de quinta a domingo no Parque Municipal Américo Renné Giannetti — gastronomia, cultura e esporte reunidos num dos parques mais bonitos da cidade.
Já a 1ª Maratona e 17ª Meia Maratona Internacional de BH acontece em 28 de junho de 2026, no auge do inverno mineiro — com temperaturas próximas de 10°C na largada, céu limpo e zero chance de chuva. Esse sim é o percurso dos sonhos de quem quer bater PR: praticamente plano, na região da Pampulha, com largada e chegada na Praça Geralda Damata Pimentel, ganho de elevação de apenas 79 metros nos 42K. Mas o que torna essa prova única no Brasil inteiro é o percurso passar pelas ruas internas do Jardim Zoológico de Belo Horizonte — a única corrida do país com essa característica. Você vai correr entre os recintos dos animais, com a fauna da Fundação Zoobotânica como paisagem. A cada edição, uma espécie brasileira ameaçada de extinção é escolhida como mascote — e parte da renda vai pra projetos de preservação. Esporte e consciência ambiental no mesmo percurso.
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