Quanto sódio repor por hora de esforço e quando o isotônico não fecha o déficit. Análise fisiológica + comparativo Sudract Hydramaxi vs Isotonic Pro
A câimbra no km 28 de uma maratona não é fraqueza muscular. É débito de sódio acumulado desde antes do km 10, invisível no split parcial, ausente no display do GPS, mas presente na conta fisiológica que o corpo cobra quando o gradiente iônico não aguenta mais sustentar a contração.
O problema não começou quando a perna travou.
Começou quando a estratégia de hidratação ignorou o que o suor estava levando embora.
O mercado de isotônicos cresceu, a lógica de uso não acompanhou, a maioria dos atletas ainda hidrata por sede, bebe quando percebe, na quantidade que parece certa, sem calcular o que está perdendo por litro de suor.
Sede e déficit de eletrólitos são fenômenos fisiológicos diferentes: você pode estar com déficit crítico de sódio sem sentir sede, especialmente em esforços longos onde a adaptação ao calor mascara o sinal.
Hidratação correta em endurance não é volume, é composição e é exatamente essa distinção que ainda falta na prateleira de decisão da maioria dos atletas.
A concentração de sódio no suor varia entre 460mg e 1.840mg por litro, com média próxima de 920mg/L em atletas treinados. Para um corredor que perde 1L de suor por hora em condição de calor moderado, cenário comum num treino longo de agosto em São Paulo, isso representa aproximadamente 920mg de sódio saindo pelo corpo a cada hora.
Uma porção padrão de isotônico em 500mL entrega em torno de 260mg de sódio.
A matemática já explica por que a câimbra chega no km 28: para fechar o déficit numa taxa de sudorese de 1L/h, você precisaria de quase 3,5 porções de isotônico por hora, volume incompatível com a capacidade gástrica de absorção.
É exatamente esse gap entre perda e reposição que analisamos em detalhe em a sede que engana: seu corpo pede água antes de você sentir vontade de beber.
A bomba Na+/K+ opera em cada célula muscular a cada contração e ela depende de gradiente eletroquímico.
Sódio extracelular em concentração adequada é condição estrutural, não variável opcional.
Quando a natremia cai abaixo de 135mEq/L, o sinal vem primeiro no sistema nervoso central: confusão, tontura e comprometimento cognitivo aparecem antes da câimbra clássica.
O diagnóstico clínico chama de hiponatremia.
O atleta chama de “dia ruim” e atribui ao treinamento pesado da semana.
A causa mais comum não é falta de isotônico, é excesso de água pura sem reposição paralela de sódio, que dilui o sódio plasmático em vez de repô-lo.
O isotônico mal dosado, muito diluído, consumido em volume abaixo do necessário para o perfil de suor, produz o mesmo efeito com mais custo.
É aqui que a diferença entre os dois Sudract importa na prática.
Hydramaxi (porção de 20g) e Isotonic Pro Drink (porção de 30g) entregam o mesmo sódio por porção: 260mg.
Mas a composição diverge onde o esforço exige escolha.
O Hydramaxi tem 19g de carboidratos, 50mg de potássio e 68 kcal por porção, fórmula mais leve, encaixe certo para esforços de até 90 minutos onde o foco é hidratação e reposição iônica sem sobrecarga calórica.
O Isotonic Pro Drink entrega 27g de carboidratos, 96mg de potássio e 108 kcal, mais denso energeticamente, maior aporte de potássio, melhor alinhamento para esforços acima de 2h onde a reposição calórica paralela é parte da estratégia, não acessório.
O protocolo de reposição muda conforme a modalidade e a diferença entre usar isotônico certo e errado está nesses números.
Em esforços de até 40 minutos (5km, 10km, aquathlon curto): hipotônico ou água é suficiente; o débito de sódio não chega a comprometer performance nesse janela.

Em meia maratona e esforços de 1h30 a 2h30: 400-600mL de isotônico por hora mais cápsula de sódio adicional se a taxa de sudorese for alta (acima de 1,2L/h) ou se o residual branco na roupa pós-treino for visível.
Em maratona, triathlon olímpico e pedal acima de 3h: protocolo base de isotônico mais 300-500mg de sódio extra por hora para atletas com suor salgado e aqui o sweat test individual deixa de ser orientação e vira necessidade.
O protocolo caseiro é simples: pesar sem roupa antes do treino, treinar 1h sem beber nada, pesar ao final.
Cada 1kg de diferença corresponde a aproximadamente 1L de suor perdido, multiplique por 920mg e você tem o déficit estimado por hora, o ponto de partida real do protocolo.
Sódio resolve a estrutura extracelular, mas potássio, magnésio e cloreto compõem a mesma equação e cada um cobra em momento diferente.
O potássio opera no intracelular: a razão Na+/K+ é o que sustenta o potencial de membrana em repouso.
O Isotonic Pro Drink entrega 96mg de K+ por porção; o Hydramaxi, 50mg. Nenhum fecha sozinho a necessidade em esforços longos, perda estimada de 150 a 250mg de potássio por hora no suor, mas isso não é limitação desses produtos, é limitação do isotônico como categoria.
Atletas com histórico de câimbra persistente mesmo com hidratação correta de sódio precisam investigar magnésio: deficiência de Mg2+ produz apresentação clínica semelhante e não responde a nenhum protocolo de isotônico.
O cloreto segue o sódio, se a reposição de Na está acontecendo no volume certo, o Cl- entra junto.
A variabilidade individual é o dado que mais atletas ignoram no protocolo de hidratação.
Taxa de sudorese de 0,8L/h em treino de intensidade moderada pode virar 2,5L/h num pedal de alta intensidade a 35°C, mesmo atleta, mesmo peso, mesma planilha, contexto diferente.
O residual branco na roupa escura depois do treino é o marcador mais acessível: quanto mais visível, mais salgado o suor, mais sódio perdido por litro.
Quem tem esse perfil precisa de protocolo mais agressivo de reposição e o isotônico padrão, mesmo consumido em volume adequado, não fecha o déficit sem suplementação adicional de sódio.
Sem o sweat test, a dosagem certa é sempre uma aproximação.
Com ele, é dado de treino.
Isotonic Pro Drink: acima de 2h — maior aporte de K⁺ (96mg vs 50mg), mais carboidrato para reposição calórica paralela. Sódio idêntico por porção, mas o restante da composição fecha melhor a conta de um esforço longo.
Gear errado, suplementação genérica e protocolo copiado de outro atleta ,o resultado aparece nos últimos 5km de qualquer prova.
A box do clube existe para evitar esse custo. Monte a sua.
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