Uma recente revisão científica publicada em periódico internacional e amplamente divulgada no meio acadêmico reacendeu um debate antigo, mas sempre sensível, no universo dos esportes de endurance — especialmente corrida de rua, maratonas, ultramaratonas e provas de longa duração: os atletas estariam consumindo mais carboidratos do que realmente precisam durante o exercício?
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!A publicação ganhou repercussão imediata entre treinadores, nutricionistas esportivos e atletas, não apenas pelas conclusões apresentadas, mas também pelo perfil dos autores envolvidos, o que trouxe à tona discussões sobre conflitos de interesse e vieses ideológicos na interpretação científica.
O que diz a revisão científica
De forma resumida, os autores questionam o modelo clássico que sustenta as recomendações tradicionais de ingestão elevada de carboidratos durante exercícios prolongados. A revisão propõe que a fadiga em provas longas estaria mais relacionada à hipoglicemia induzida pelo exercício do que, necessariamente, à depleção de glicogênio muscular.
A partir dessa interpretação fisiológica, o artigo sugere que:
Manter a glicemia estável pode ser mais relevante do que consumir grandes quantidades de carboidratos;
Protocolos atuais de ingestão (60 g, 90 g ou mais por hora) poderiam ser excessivos para parte dos atletas;
Estratégias com menor ingestão de carboidratos poderiam ser suficientes em determinados contextos.
Do ponto de vista acadêmico, trata-se de uma revisão narrativa, ou seja, não apresenta dados experimentais inéditos, mas reorganiza e interpreta estudos previamente publicados.
Quem são os autores e por que isso importa
A análise crítica de qualquer revisão científica exige atenção especial ao histórico acadêmico, posicionamento público e vínculos profissionais dos autores, especialmente quando o tema envolve nutrição e recomendações práticas.
Jeff S. Volek, PhD
Um dos nomes mais conhecidos da lista de autores, Volek é:
Pesquisador com vasta produção científica em metabolismo e nutrição;
Sócio e cofundador da Virta Health, empresa norte-americana que atua diretamente na promoção de intervenções nutricionais baseadas em dietas de baixa ingestão de carboidratos e cetogênicas, especialmente no tratamento do diabetes tipo 2;
Autor de livros amplamente divulgados que defendem a abordagem low carb, pelos quais recebe royalties.
Esses vínculos são declarados formalmente como conflito de interesse em outras publicações científicas do próprio autor.
Outros autores
Outros pesquisadores envolvidos na revisão também têm:
Histórico de defesa pública de abordagens low carb;
Participação em livros, palestras, cursos e projetos científicos alinhados à mesma linha nutricional;
Atuação ativa em canais de divulgação científica e mídia defendendo a redução do consumo de carboidratos.
É importante destacar: isso não invalida automaticamente a capacidade técnica ou a produção científica dos autores, mas configura um contexto claro de interesse ideológico e, em alguns casos, econômico, que precisa ser considerado ao interpretar conclusões que confrontam consensos consolidados.
O que a ciência consolidada ainda sustenta
Apesar do debate, meta-análises e revisões sistemáticas robustas continuam demonstrando que a ingestão adequada de carboidratos melhora o desempenho em exercícios prolongados, especialmente em provas acima de 2 horas, comuns na maratona, ultramaratona, ciclismo e triathlon de longa distância.
O que muda — e onde o debate é válido — não é a utilidade do carboidrato, mas:
A quantidade ideal;
O timing;
A forma de ingestão;
E, principalmente, para quem e em qual contexto.
Individualidade biológica: o ponto que nunca muda
Se há um consenso sólido que atravessa décadas de ciência do esporte, é este:
não existe uma estratégia nutricional universal que funcione da mesma forma para todos os atletas.
Cada organismo responde de forma diferente à ingestão de carboidratos, influenciado por:
Intensidade e duração da prova;
Nível de treinamento;
Histórico nutricional;
Capacidade de absorção intestinal;
Tolerância gastrointestinal;
Objetivo competitivo.
Por isso, no endurance, o treino longo é o verdadeiro laboratório do atleta.
É nos longões que se testa:
Quantidade de carboidrato por hora;
Tipos de carboidrato;
Combinação com líquidos e eletrólitos;
Estratégias mais conservadoras ou mais agressivas.
Somente a partir dessas experiências, repetidas e analisadas, o atleta chega à prova-alvo sabendo como seu corpo responde sob fadiga real, e não apenas no papel ou na teoria.
A revisão científica que provocou o atual alvoroço cumpre um papel importante ao estimular o debate fisiológico e questionar dogmas antigos. No entanto, suas conclusões precisam ser lidas com senso crítico, levando em conta:
O tipo de estudo (revisão narrativa);
O histórico e os vínculos dos autores;
E o corpo mais amplo de evidências científicas já consolidado.
No esporte de endurance, a melhor estratégia continua sendo a mais inteligente:
ciência como base, individualidade biológica como regra e treino longo como ferramenta de ajuste fino.
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