Poucas provas no calendário brasileiro exigem que o atleta escolha a própria dose de sofrimento antes mesmo de sair de casa. A UAI Ultramaratona Internacional dos Anjos faz exatamente isso: seis distâncias: 25km, 55km, 100km, 140km, 170km e 235km, largadas em cidades diferentes espalhadas pela Serra da Mantiqueira mineira, e uma única linha de chegada em Passa Quatro/MG. O ponto de partida muda. O destino é sempre o mesmo. E o percurso, em qualquer das categorias, não perdoa quem chegou subpreparado para a montanha.
Organizada pela Ultra Runner Eventos, a UAI carrega credencial UTMB, o que já diz algo sobre o nível de exigência da prova. Não é uma ultramaratona de loop onde o atleta passa pela base a cada volta. É uma travessia real: quem larga nos 55km sai de São Lourenço em direção a Passa Quatro. Nos 100km, a largada é em Baependi. Nos 170km, em Alagoa. O 235km parte de Passa Quatro, cruza Itamonte, Alagoa, Aiuruoca, Cachoeira dos Garcias, Baependi, Caxambu, São Lourenço e retorna, a Serra da Mantiqueira inteira como percurso.
Cada distância tem um caráter próprio. O 25km de Passa Quatro é a porta de entrada, survivor obrigatório, um ponto de controle no km 12, limite de seis horas. Ainda é trail de montanha, mas com escopo claro. O 55km, com largada em São Lourenço e encerramento em Passa Quatro, já carrega uma reputação construída por quem foi: atletas relatam nas redes que a UAI 55km exige mais que provas de 65km em outros formatos, pelo perfil técnico das trilhas da Mantiqueira. O 100km sai de Baependi com três pontos de controle no caminho (Caxambu no km 20, São Lourenço no km 45, Virgínia no km 66) e limite de 26 horas. A partir dos 140km, o carro de apoio entra como opção para quem opta por “solo com apoio” e um perfil de terreno passa a isolar completamente o atleta em determinados trechos, especialmente entre Aiuruoca e o Espraiado do Gamarra, numa área de preservação ambiental onde nenhum veículo pode circular.
A questão energética nessas distâncias vai muito além do gel a cada 45 minutos. Nas categorias Survivor, obrigatório para quem compete nos 25km, 55km e 100km, o atleta carrega tudo que vai consumir, num trecho que pode atingir aproximadamente 40km entre pontos de controle sem reabastecimento externo. Nos 235km Survivor, o regulamento é explícito: alimentação extra suficiente para cobrir essa janela entre PCs é item obrigatório de kit. Isso muda completamente o planejamento calórico da prova a estratégia hipercalórica deixa de ser opção e vira protocolo, como detalhamos em nossa análise sobre quando comer não é suficiente no endurance.
Quando o problema é carregar calorias de qualidade em peso mínimo e sem risco de distress gastrointestinal no meio da montanha, a lógica aponta para alimentos de alta densidade proteica e energética. A Power Protein Crisp Banoffee – Max Titanium entra nesse cálculo: 15g de proteína e TCM (Triglicerídeos de Cadeia Média) em 44g de barra, sem lactose, com carboidrato de baixo índice glicêmico que entrega energia sustentada sem o pico e queda que compromete o ritmo nos trechos mais isolados do Survivor. Caixa com 12 unidades. Confira aqui.
O kit obrigatório da UAI cresce com a distância e essa progressão é o mapa de exigência da prova. Para o 55km: mochila ou cinto de hidratação, duas lanternas com pilhas sobressalentes, colete refletivo, cobertor térmico e apito. Para os 100km: mesmos itens. A partir dos 140km: acrescenta corta-vento e medicamentos (antidiarreico, antitérmico, analgésico). Para os 235km com ou sem apoio: adiciona agasalho, calça segunda pele, luva e touca/buff. O atleta que está montando o stack de trail para uma prova nesse nível, especialmente em estreia numa ultra de montanha, encontra curadoria técnica completa no entreesportes pro — categoria trail.
A navegação noturna da UAI tem regras que valem como alerta antes da largada: a passagem por pontos de controle ou chegada sem colete refletivo após o pôr do sol resulta em desclassificação imediata, mesmo que o atleta esteja portando o equipamento na mochila ou no carro de apoio. A marcação do percurso é feita com setas amarelas pintadas e placas refletivas, complementadas por pontos luminosos fluorescentes nas curvas e bifurcações para a navegação noturna. O trecho entre Aiuruoca (km 95 no 235km) e o Espraiado do Gamarra (km 135) é o mais isolado da prova: impraticável para veículos, em área protegida do Parque Estadual da Serra do Papagaio, o regulamento recomenda explicitamente pace ou grupamento nesse segmento. Nesses trechos, o atleta está sozinho com a montanha e o planejamento dessa janela define se a prova termina em pé ou em DNF.
Passa Quatro é o centro gravitacional de toda a prova, largada do 25km e do 235km, chegada de todas as distâncias, sede do evento. A cidade está encravada na Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, e guarda uma geografia que a maioria dos visitantes convencionais nunca acessa. A Pedra da Mina, a 2.798 metros de altitude, é o quarto pico mais alto do Brasil e está a menos de 30km do centro histórico de Passa Quatro, um roteiro que o atleta que chegou pela prova enxerga com olhos completamente diferentes. A Maria Fumaça, locomotiva de 1929 que ainda percorre o trecho histórico da região, conecta a cidade a um trajeto que cruzou gerações de montanhistas. A FLONA de Passa Quatro, Floresta Nacional com 335 hectares, tem trilhas que levam às cachoeiras da Iporã e da Gomeira, acessíveis a pé do centro. E o trajeto da prova passa por Caxambu e São Lourenço, duas das maiores cidades termais do país: quem faz o 100km ou mais literalmente corre através de um roteiro que turista nenhum percorre com essa perspectiva.
A UAI está num ponto singular do calendário de trail brasileiro: mantém o formato de travessia quando a maioria das ultras migrou para loops, entrega seis escalões que permitem ao atleta calibrar o desafio sem trocar de prova, e ainda tem limite de 100 atletas por distância. Não existe nada geograficamente equivalente no circuito, uma única prova que atravessa a Serra da Mantiqueira e encerra em Passa Quatro independente de onde você largou. Para quem compete em trail há anos e ainda não fez a UAI, essa é a lacuna no palmarès.

A UAI Ultramaratona Internacional dos Anjos 2026 acontece de 22 a 26 de julho em Passa Quatro/MG. As largadas distribuídas pelas cidades da Serra da Mantiqueira começam na sexta-feira e vão até o sábado, com encerramento oficial no domingo. Cada distância tem limite de 100 atletas. Regulamento em ultrarunnereventos.com.br
entreesportes.
Ficha Técnica
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Nome oficial | UAI Ultramaratona Internacional dos Anjos 2026 |
| Organização | Ultra Runner Eventos |
| Data | 22 a 26 de julho de 2026 |
| Local de chegada | Praça de Eventos, ao lado da Rodoviária, Centro de Passa Quatro/MG |
| Distâncias | 25km · 55km · 100km · 140km · 170km · 235km |
| Largadas | Passa Quatro (25km e 235km) · São Lourenço (55km) · Baependi (100km) · Aiuruoca (140km) · Alagoa (170km) |
| Limites de tempo | 25km: 6h · 55km: 12h · 100km: 26h · 140km: 36h · 170km: 48h · 235km: 60h |
| Limite de participantes | 100 atletas por distância |
| Formato | Survivor obrigatório (25/55/100km) · Solo com apoio ou Survivor (140/170/235km) |
| Credencial | UTMB |
| Site oficial | ultrarunnereventos.com.br |
A Serra da Mantiqueira ficou no corpo de quem foi. Registre no Strava, entre no clube do entreesportes e compartilhe com quem sabe o que significa cruzar uma linha de chegada de ultra.
