2h01min52s. O percurso mais técnico das Majors acaba de ganhar o tempo mais rápido da sua história
Tem corridas que você acompanha pela tela e sente vontade de estar lá. A 130ª Boston Marathon foi uma delas. Não pelo clima, uma manhã fria com temperatura em torno de seis graus quando os elites largaram de Hopkinton, vestidos com luvas e o vento noroeste nas costas. Mas pela sensação de estar vendo algo raro acontecer: um percurso que o esporte tratou durante 130 anos como inimigo do relógio ser dobrado, sem cerimônia, por um homem de 29 anos que ainda teve energia para espalhar os braços no Kenmore Square com uma milha pela frente.
Boston não é uma prova qualquer para quem vive o esporte como estilo de vida. É uma peregrinação. Você não vai a Boston só para correr, você vai descobrir o que significa chegar a Hopkinton antes do sol raiar, passar pelo Scream Tunnel de Wellesley com o ruído das estudantes perfurando o silêncio do km 21, subir Heartbreak Hill no km 32 com as pernas já pesadas e entender, na curva para a Boylston Street, por que essa prova nunca sai da cabeça de quem a corre. O percurso atravessa seis cidades, Hopkinton, Ashland, Framingham, Natick, Wellesley e Newton, antes de mergulhar em Brookline e chegar ao coração de Back Bay. São 42,195 km que contam uma história diferente a cada quilômetro.
O que aconteceu nesta edição foi além do esperado. John Korir, queniano bicampeão, quebrou o recorde histórico do percurso com 2h01min52s, superando em mais de um minuto a marca de Geoffrey Mutai, que resistia desde 2011. O ritmo médio foi de aproximadamente 2min53s/km do início ao fim. Para contextualizar: é o quinto tempo mais rápido já registrado numa maratona, num percurso ponto a ponto que, por sua altimetria, sequer é homologável para recordes mundiais. O que o entreesportes já analisou antes da prova em nossa cobertura sobre os supershoes da temporada 2025/2026 no percurso mais técnico das Majors se confirmou em campo: a tecnologia de carbono foi decisiva para viabilizar esse nível de performance num trajeto com colinas.
No feminino, Sharon Lokedi, também queniana, também bicampeã, usou uma estratégia inversa e igualmente eficiente. Cruzou a metade em 1h11min03s, bem abaixo do seu ritmo de recorde, e disparou nas Newton Hills para chegar isolada em 2h18min51s. O pódio feminino foi uma varredura do Quênia: Loice Chemnung (2h19min35s), Mary Ngugi-Cooper (2h20min07s) e Mercy Chelangat (2h20min30s). A americana Jess McClain fechou em quinto com 2h20min49s, novo recorde americano no percurso, superando a marca histórica de Shalane Flanagan. No masculino, Alphonce Felix Simbu (Tanzânia) e Benson Kipruto (Quênia) completaram o pódio em 2h02min47s e 2h02min50s, ambos abaixo do antigo recorde do percurso.
A ASICS dominou o campo com sete dos dez primeiros entre homens e mulheres usando seus modelos. Korir correu pelo segundo ano seguido com uma versão de desenvolvimento do MetaSpeed Sky, espuma FF Leap com placa de carbono, ainda mais leve do que a versão Tokyo já disponível ao público. A Nike marcou presença com o Alphafly 4 no segundo e terceiro lugares masculinos. Lokedi voltou a vencer com o Under Armour Velociti Elite 3, o mesmo modelo com o qual quebrou o recorde feminino em 2025, desta vez num colorway hot pink desenvolvido em colaboração direta com a atleta. E a Brooks apareceu com o protótipo do Hyperion Elite 6 nos pés de Jess McClain, ainda sem data de lançamento mas já com recorde americano no currículo. O mercado de super tênis está sendo reescrito em tempo real e Boston é o laboratório.
Quem vai a Boston como atleta descobre uma cidade que o turista comum simplesmente não acessa. A experiência começa dias antes, quando você ainda está em Back Bay e passa pela Heartbreak Hill Running Company, a loja de referência da prova, que vira ponto de encontro, shakeout run e epicentro da cultura do corredor nos dias que antecedem o evento. O percurso sai de Hopkinton, uma cidade pequena e tranquila que se transforma num acampamento de 30.000 pessoas na manhã da prova e atravessa subúrbios de Massachusetts com casas coloniais, árvores ainda sem folhas em abril e famílias sentadas nas calçadas com cadeiras de jardim e cartazes. No km 13, Wellesley. A biblioteca feminina do Wellesley College despeja um barulho ensurdecedor que você ouve antes de ver é o famoso Scream Tunnel, uma tradição de mais de cem anos que literalmente te empurra para a segunda metade. Depois vêm as Newton Hills, a subida para Heartbreak Hill e, finalmente, a descida para Brookline, Kenmore Square e a virada para a Boylston Street. Quem termina ali entende o que significa cruzar uma linha que tem 130 anos de história embaixo dos pés.
Esta edição consolidou algo que vai além do recorde. É a primeira vez desde 1994-95 que campeão masculino e feminino se repetem no mesmo ano, feito que Uta Pippig e Cosmas Ndeti fizeram há mais de 30 anos. Korir venceu com o irmão Wesley na linhagem — Wesley ganhou Boston em 2012, tornando-os a única família a vencer a prova em diferentes anos. Mais de 30.000 atletas cruzaram a Boylston Street ao longo do dia, incluindo a astronauta Suni Williams, que voltou do espaço após 286 dias e completou a prova em 5h52min. Benson Kipruto, terceiro colocado, disse depois da prova que “Boston normalmente não é sobre tempo, hoje foi”. E ele chegou em terceiro. Isso resume tudo.
Se você ainda não foi a Boston, esta edição deveria estar na sua lista de razões para começar a treinar para um BQ. A prova abre inscrições via qualificação de tempo e via charity e o processo para 2027 já pode ser monitorado no site da BAA. A próxima Major é a TCS London Marathon, dia 26 de abril. O calendário não para e o entreesportes acompanha cada largada.
entreesportes.
Top 5 masculino
| Pos | Atleta | Nacionalidade | Tempo | Tênis |
|---|---|---|---|---|
| 1º | John Korir | Quênia 🇰🇪 | 2:01:52 ⚡ Course Record | ASICS MetaSpeed Sky (protótipo) |
| 2º | Alphonce Felix Simbu | Tanzânia 🇹🇿 | 2:02:47 | Nike Alphafly 4 |
| 3º | Benson Kipruto | Quênia 🇰🇪 | 2:02:50 | Nike Alphafly 4 |
| 4º | Hailemaryam Kiros | Etiópia 🇪🇹 | 2:03:42 | Adidas Adizero Adios Pro 4 |
| 5º | Zouhair Talbi | EUA 🇺🇸 | 2:03:45 | Nike Alphafly 4 |
Top 5 feminino
| Pos | Atleta | Nacionalidade | Tempo | Tênis |
|---|---|---|---|---|
| 1ª | Sharon Lokedi | Quênia 🇰🇪 | 2:18:51 | Under Armour Velociti Elite 3 (hot pink exclusivo) |
| 2ª | Loice Chemnung | Quênia 🇰🇪 | 2:19:35 | Adidas Adizero Adios Pro 4 |
| 3ª | Mary Ngugi-Cooper | Quênia 🇰🇪 | 2:20:07 | Nike Alphafly 4 |
| 4ª | Mercy Chelangat | Quênia 🇰🇪 | 2:20:30 | Adidas Adizero Adios Pro 4 |
| 5ª | Jess McClain | EUA 🇺🇸 | 2:20:49 🇺🇸 American Record | Brooks Hyperion Elite 6 (protótipo) |


