Seis workouts em três dias. Uma prova na sexta, três no sábado, duas no domingo. Quatro ambientes diferentes, arena interna coberta, campo aberto, piscina e rua. O Monstar não escolhe uma valência e aposta nela. Cobra tudo ao mesmo tempo, em sequência, com um dia de diferença entre os esforços.
A corrida de 6km no sábado de manhã é uma marca registrada que poucos eventos do calendário mantêm. Não é aquecimento é uma prova com pontuação própria, disputada antes de mais dois workouts no mesmo dia. O atleta que chega no sábado à tarde ainda tem o domingo pela frente. O sistema fosfocreatina, ativado nas explosões de levantamento de peso, precisa coexistir com a capacidade aeróbia que a corrida e a piscina exigem. Não é CrossFit de academia. É o CrossFit que revela se o condicionamento é real ou apenas treino bem-feito em condições controladas.
Essa lógica de quatro ambientes simultâneos é onde o Monstar se separa de qualquer evento que se limite a duas quadras. A piscina testa o que nenhuma barra consegue, o controle de respiração sob fadiga. O campo aberto expõe o atleta ao sol, ao vento e à ausência de qualquer referência de distância. A arena interna devolve a estrutura, mas não o conforto, o calor acumulado de um dia inteiro de competição cobre tudo que ainda precisa ser feito. Quem chegou em Goiânia com lacuna em qualquer uma dessas modalidades encontrou o Monstar exatamente onde dói.
A 18ª edição do Monstar Games consolidou o que o evento vem construindo desde 2014 em Goiânia. Não é coincidência que a cidade natal do festival seja também onde a prova voltou depois de dividir edições entre São Paulo, Rio e Brasília. Goiânia entende o Monstar de um jeito diferente, o público aparece, o ecossistema de boxes sustenta o volume e a cidade absorve 10 mil pessoas num fim de semana de fitness sem perder o ritmo. O Sesi Multiparque entregou as quatro arenas que a competição exige: duas quadras cobertas, um campo aberto e uma piscina. Cada uma com seu próprio vocabulário de sofrimento.
O elite feminino foi a categoria que mais evidenciou o que está acontecendo com o CrossFit competitivo brasileiro. Emily Andrade, da Brave Fitness Factory, liderou com 560 pontos, mas o que chama atenção não é a pontuação dela, é o que ficou atrás. Geovana Ravilla, da Garra Cross/Hércules Funcional, fechou em segundo com 512 pontos. Carolina Figueira, da CF Nest/Contagem, foi terceira com 506. Elizangela Gonçalves quarta com 501. Kelly Castro quinta com 493. Dezenove pontos entre segunda e quinta colocada. Em três dias de prova, essa diferença cabe dentro de uma única rep executada errada. É o que o entreesportes já identificou na nossa cobertura da Copa Sur 2026, a semifinal continental do CrossFit Games, o campo feminino brasileiro passou por uma densificação técnica que não perdoa mais inconsistência.
No elite masculino, Dan Moreira, da Sparta 1507/Unbrokenz, fez o que um líder faz: não venceu tudo, mas não perdeu onde importava. Somou 525 pontos e foi o único do top 5 a superar 520. João Borba, da Hércules Functional, foi segundo com 500, 25 pontos abaixo. Guilherme Maciel, da Bulo CrossFit/GL Athletes, fechou o pódio com 495. A diferença entre primeiro e segundo no masculino parece confortável no papel. Na prática, é o resultado de três dias acumulando decisões corretas sobre intensidade, gerenciamento de fadiga e escolha de estratégia em cada evento. Moreira não ganhou por talento. Ganhou por execução.
O que separa o Monstar de outros eventos do calendário é o qualifier. Não é uma inscrição aberta, é um filtro online com workouts complexos que definem quem de fato merece estar na arena. O atleta que chega em Goiânia já provou alguma coisa antes de pisar no piso. E mesmo assim, a prova mostra o que falta.
Para quem está construindo a base para eventos dessa exigência, a recuperação entre os dias é onde as posições se constroem ou se perdem. O sistema fosfocreatina, que sustenta a potência nos esforços explosivos repetidos do levantamento de peso, dos movimentos ginásticos e das transições de alta intensidade, precisa de reposição real entre as sessões. Três a cinco gramas por dia, consumidas no pós-treino junto com carboidrato, produzem a saturação muscular necessária sem desconforto gastrointestinal. É o protocolo mais eficiente para o atleta que vai competir por três dias seguidos. O entreesportes detalhou esse protocolo completo, incluindo por que a fase de saturação é opcional e como o transporte de creatina para o músculo funciona na prática, na nossa análise sobre creatina no endurance e performance de alta intensidade. Leitura obrigatória antes do próximo qualifier.
A suplementação crônica de três a cinco gramas diárias de creatina monoidratada aumenta os estoques de fosfocreatina no músculo, acelera a ressíntese de ATP nos picos de intensidade que toda prova de endurance tem, as subidas, os tiros finais, as acelerações táticas e reduz o dano muscular ao longo das horas de esforço contínuo. Para o corredor de maratona, o triatleta de Ironman e o atleta de CrossFit ou Hyrox, os benefícios são concretos e mensuráveis. E o argumento de que creatina causa retenção de líquido é real na fase de saturação, mas essa retenção é intramuscular, o que significa mais água disponível para a célula muscular trabalhar, não inchaço periférico.
O dado que resume a 18ª edição: 25 pontos separaram primeiro e segundo no masculino. Dezenove separaram segundo e quinto no feminino. Esses números dizem mais sobre o nível do CrossFit competitivo brasileiro do que qualquer ranking. Não há mais atleta dominante que vence com folga. Há campo. E campo denso muda tudo, a preparação precisa ser completa, sem lacuna em nenhuma modalidade, porque no Monstar não existe prova que você pode dar de ombros.
Goiânia entrega o que o atleta que viaja para uma prova precisa encontrar. O Parque Vaca Brava fica a menos de 10 minutos do Multiparque, opção de trote leve na véspera da competição com sombra e distância controlada. O Mercado Central abre cedo no sábado e tem o café da manhã que o atleta que vai competir precisa: denso, quente, sem pressa. A cidade tem uma energia que quem chega de fora não espera e que quem volta entende. O Monstar não seria o Monstar em qualquer cidade. Acontece em Goiânia porque Goiânia sustenta.
O que a 18ª edição confirma não é nenhuma surpresa para quem acompanha o calendário: o Monstar Games é o benchmark do fitness competitivo na América Latina. Mais de 1.500 atletas, seis países, qualifier exigente, quatro arenas, três dias. O evento que começou com 750 pessoas em setembro de 2014 chegou a 2026 como o maior festival fitness do continente. Dan Moreira e Emily Andrade são os campeões desta edição. Os nomes que aparecem atrás deles são o motivo pelo qual o próximo qualifier vai ser ainda mais disputado.
Para quem ficou de fora: o qualifier online da próxima edição abre no fim do ano. Para quem foi e sabe o que precisa melhorar, a temporada continua.
entreesportes.
