A 24ª edição do Nubank Ultravioleta Ironman Brasil entregou mais do que resultado. Entregou narrativa. A argentina Romina Biagioli, 37 anos, nunca havia feito um Ironman Full na vida. Escolheu Florianópolis para estrear, administrou o percurso inteiro com a disciplina de quem treinou para aquele esforço específico, e cruzou a linha de chegada em primeiro, 8h45min24s. No masculino, o alemão Wilhelm Hirsch, 28 anos e Top 30 do ranking mundial, construiu uma vitória que se decidiu na segunda metade do ciclismo, quando o vento atlântico entrou no percurso e quem não tinha poupado pagou na corrida. Tempo final: 7h32min25s.
Mas a prova maior do dia foi outra. Pâmella Oliveira, tetracampeã consecutiva do Ironman Brasil entre 2022 e 2025, anunciou antes da largada que esta seria sua última prova na distância Full. E correu como se fosse. Ficou a 1min22s de Biagioli, uma diferença que em 140,6 milhas representa menos de um segundo por quilômetro. Terminou em segundo, com 8h46min46s, depois de uma maratona que ela foi até o limite. “Foi uma disputa muito dura até o final. Fui até a linha de chegada com tudo o que eu tinha. Não deixei nada guardado”, disse Pâmella depois. Biagioli, do outro lado, confessou que nunca se sentiu completamente segura: “Toda vez que eu olhava, ela continuava próxima.” Uma estreante vencendo na primeira tentativa enquanto a maior campeã da prova vai até o limite para tentar o penta. O triathlon de longa distância é onde a relação do atleta com o próprio limite aparece de forma mais honesta.
No masculino, a despedida foi de Reinaldo Colucci. Bicampeão do Ironman Brasil em 2022 e 2024, o gaúcho anunciou que não disputará mais provas profissionais. Cruzou a linha de chegada visivelmente emocionado. “Gostaria de uma despedida mais positiva. Foram muitas lembranças durante a prova, a torcida de todos.” O mesmo dia que apresentou um estreante ao pódio foi também o dia em que dois dos maiores nomes do triathlon brasileiro disseram adeus à distância que os definiu. Youri Keulen, holandês em sua própria estreia no Full, ficou em segundo com 7h33min26s, um segundo mais lento que Hirsch. O francês Arnaud Guilloux completou o pódio em 7h38min03s. Fernando Toldi foi o melhor brasileiro com 7h44min19s, quarto lugar, resultado sólido de um atleta que chegou a Floripa depois de vencer o Ironman 70.3 Curitiba no início da temporada.
O número que define a escala da prova: R$ 70 milhões movimentados na economia de Florianópolis em um único fim de semana, segundo a Unlimited Sports. Dois mil atletas que precisaram de hospedagem, alimentação, transporte e suporte técnico durante os dias anteriores à prova. Quarenta vagas para o Mundial de Kona distribuídas entre os amadores, 20 masculinas e 20 femininas. Para o atleta amador que foi a Jurerê buscar uma dessas vagas, a prova entregou o que o percurso prometia: natação em mar aberto com ondas previsíveis em maio, ciclismo com altimetria gerenciável e maratona com estrutura de suporte até os metros finais. Completar um Ironman não é sobre acumular volume de treino. É sobre respeitar os ciclos de carga e recuperação, chegar na largada com as reservas certas e saber o que fazer quando o corpo começa a negociar no km 30 da corrida.
Florianópolis em maio tem o que o atleta que viaja para um Ironman precisa encontrar fora d’água. A Lagoa da Conceição fica a 20 minutos de Jurerê — opção de trote leve dois dias antes da prova, com percurso plano e paisagem que o atleta explorador descobre por acidente, nunca por roteiro de turismo. O Mercado Público no Centro Histórico abre cedo e serve café da manhã denso para quem tem uma longa jornada pela frente. O Jurerê Internacional concentra estrutura e hospedagem a 300 metros do percurso, mas quem fica só na bolha perde a Floripa real — a que está disponível para quem chega dois dias antes, acorda cedo e circula antes do movimento. Santa Catarina registrou aumento de 70% no número de corridas e provas de endurance entre 2024 e 2025, segundo dados apresentados no RunCon 2025. A prova não é um evento isolado — ela acontece dentro de um ecossistema esportivo que a cidade vem construindo há mais de duas décadas.
A 24ª edição do Ironman Brasil encerrou com um placar incomum: uma vencedora que estreou na distância, um campeão que se posicionou com frieza, dois ícones que se despediram com dignidade e 2.000 atletas que fizeram o que a maioria das pessoas nunca vai fazer — acordaram antes das 6h da manhã, entraram no mar em Jurerê e chegaram na linha de chegada quando a cidade já estava na noite. Isso não tem preço de inscrição que compense. O Ironman Brasil 2027 ainda não tem data confirmada. Quem foi e quer voltar já sabe o que esperar. Quem ainda não foi tem uma razão concreta para planejar.
entreesportes.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Nome oficial | 24º Nubank Ultravioleta IRONMAN Brasil |
| Data | 31 de maio de 2026 |
| Local | Jurerê Internacional — Florianópolis, SC |
| Distâncias | 3,8km natação + 180km ciclismo + 42,2km corrida |
| Total de atletas | Mais de 2.000 |
| Países representados | 26 |
| Elite profissional | 49 atletas (32 masc. + 17 fem.) |
| Premiação | US$ 40.000 |
| 1º masc. | Wilhelm Hirsch (Alemanha) — 7h32min25s |
| 2º masc. | Youri Keulen (Holanda) — 7h33min26s — estreia no Full |
| 3º masc. | Arnaud Guilloux (França) — 7h38min03s |
| 4º masc. | Fernando Toldi (Brasil) — 7h44min19s |
| 1ª fem. | Romina Biagioli (Argentina) — 8h45min24s — estreia no Ironman |
| 2ª fem. | Pâmella Oliveira (Brasil) — 8h46min46s — última prova Full |
| 3ª fem. | Julie Iemmolo (França) — 8h55min14s |
| Vagas Kona amadores | 40 (20 masc. + 20 fem.) |
| Impacto econômico | R$ 70 milhões em Florianópolis |
| Próxima edição | 2027 — data a confirmar |
