Ironman Brasil 2026: uma estreante venceu, dois ícones se despediram — e Floripa entregou o dia mais longo do triathlon sul-americano

Ironman Brasil 2026: o dia em que o triathlon brasileiro virou página. Duas despedidas, uma estreante no topo e 2.000 atletas que foram até o limite em Jurerê

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A 24ª edição do Nubank Ultravioleta Ironman Brasil entregou mais do que resultado. Entregou narrativa. A argentina Romina Biagioli, 37 anos, nunca havia feito um Ironman Full na vida. Escolheu Florianópolis para estrear, administrou o percurso inteiro com a disciplina de quem treinou para aquele esforço específico, e cruzou a linha de chegada em primeiro, 8h45min24s. No masculino, o alemão Wilhelm Hirsch, 28 anos e Top 30 do ranking mundial, construiu uma vitória que se decidiu na segunda metade do ciclismo, quando o vento atlântico entrou no percurso e quem não tinha poupado pagou na corrida. Tempo final: 7h32min25s.

Mas a prova maior do dia foi outra. Pâmella Oliveira, tetracampeã consecutiva do Ironman Brasil entre 2022 e 2025, anunciou antes da largada que esta seria sua última prova na distância Full. E correu como se fosse. Ficou a 1min22s de Biagioli, uma diferença que em 140,6 milhas representa menos de um segundo por quilômetro. Terminou em segundo, com 8h46min46s, depois de uma maratona que ela foi até o limite. “Foi uma disputa muito dura até o final. Fui até a linha de chegada com tudo o que eu tinha. Não deixei nada guardado”, disse Pâmella depois. Biagioli, do outro lado, confessou que nunca se sentiu completamente segura: “Toda vez que eu olhava, ela continuava próxima.” Uma estreante vencendo na primeira tentativa enquanto a maior campeã da prova vai até o limite para tentar o penta. O triathlon de longa distância é onde a relação do atleta com o próprio limite aparece de forma mais honesta.

No masculino, a despedida foi de Reinaldo Colucci. Bicampeão do Ironman Brasil em 2022 e 2024, o gaúcho anunciou que não disputará mais provas profissionais. Cruzou a linha de chegada visivelmente emocionado. “Gostaria de uma despedida mais positiva. Foram muitas lembranças durante a prova, a torcida de todos.” O mesmo dia que apresentou um estreante ao pódio foi também o dia em que dois dos maiores nomes do triathlon brasileiro disseram adeus à distância que os definiu. Youri Keulen, holandês em sua própria estreia no Full, ficou em segundo com 7h33min26s, um segundo mais lento que Hirsch. O francês Arnaud Guilloux completou o pódio em 7h38min03s. Fernando Toldi foi o melhor brasileiro com 7h44min19s, quarto lugar, resultado sólido de um atleta que chegou a Floripa depois de vencer o Ironman 70.3 Curitiba no início da temporada.

O número que define a escala da prova: R$ 70 milhões movimentados na economia de Florianópolis em um único fim de semana, segundo a Unlimited Sports. Dois mil atletas que precisaram de hospedagem, alimentação, transporte e suporte técnico durante os dias anteriores à prova. Quarenta vagas para o Mundial de Kona distribuídas entre os amadores, 20 masculinas e 20 femininas. Para o atleta amador que foi a Jurerê buscar uma dessas vagas, a prova entregou o que o percurso prometia: natação em mar aberto com ondas previsíveis em maio, ciclismo com altimetria gerenciável e maratona com estrutura de suporte até os metros finais. Completar um Ironman não é sobre acumular volume de treino. É sobre respeitar os ciclos de carga e recuperação, chegar na largada com as reservas certas e saber o que fazer quando o corpo começa a negociar no km 30 da corrida.

Florianópolis em maio tem o que o atleta que viaja para um Ironman precisa encontrar fora d’água. A Lagoa da Conceição fica a 20 minutos de Jurerê — opção de trote leve dois dias antes da prova, com percurso plano e paisagem que o atleta explorador descobre por acidente, nunca por roteiro de turismo. O Mercado Público no Centro Histórico abre cedo e serve café da manhã denso para quem tem uma longa jornada pela frente. O Jurerê Internacional concentra estrutura e hospedagem a 300 metros do percurso, mas quem fica só na bolha perde a Floripa real — a que está disponível para quem chega dois dias antes, acorda cedo e circula antes do movimento. Santa Catarina registrou aumento de 70% no número de corridas e provas de endurance entre 2024 e 2025, segundo dados apresentados no RunCon 2025. A prova não é um evento isolado — ela acontece dentro de um ecossistema esportivo que a cidade vem construindo há mais de duas décadas.

A 24ª edição do Ironman Brasil encerrou com um placar incomum: uma vencedora que estreou na distância, um campeão que se posicionou com frieza, dois ícones que se despediram com dignidade e 2.000 atletas que fizeram o que a maioria das pessoas nunca vai fazer — acordaram antes das 6h da manhã, entraram no mar em Jurerê e chegaram na linha de chegada quando a cidade já estava na noite. Isso não tem preço de inscrição que compense. O Ironman Brasil 2027 ainda não tem data confirmada. Quem foi e quer voltar já sabe o que esperar. Quem ainda não foi tem uma razão concreta para planejar.

entreesportes.

ItemDetalhe
Nome oficial24º Nubank Ultravioleta IRONMAN Brasil
Data31 de maio de 2026
LocalJurerê Internacional — Florianópolis, SC
Distâncias3,8km natação + 180km ciclismo + 42,2km corrida
Total de atletasMais de 2.000
Países representados26
Elite profissional49 atletas (32 masc. + 17 fem.)
PremiaçãoUS$ 40.000
1º masc.Wilhelm Hirsch (Alemanha) — 7h32min25s
2º masc.Youri Keulen (Holanda) — 7h33min26s — estreia no Full
3º masc.Arnaud Guilloux (França) — 7h38min03s
4º masc.Fernando Toldi (Brasil) — 7h44min19s
1ª fem.Romina Biagioli (Argentina) — 8h45min24s — estreia no Ironman
2ª fem.Pâmella Oliveira (Brasil) — 8h46min46s — última prova Full
3ª fem.Julie Iemmolo (França) — 8h55min14s
Vagas Kona amadores40 (20 masc. + 20 fem.)
Impacto econômicoR$ 70 milhões em Florianópolis
Próxima edição2027 — data a confirmar