Existe uma reta em Santos que o corredor que já esteve lá não esquece. É na orla do Gonzaga, nos últimos dois quilômetros dos 10km Tribuna, quando o mar aparece do lado direito, o público fecha as grades dos dois lados e o pace que você vem sustentando desde a Rua João Pessoa finalmente encontra o lugar certo para ser entregue. É o momento em que quarenta anos de prova fazem sentido num único trecho de asfalto plano à beira do Atlântico.
A Tribuna de Santos não é uma prova que cresceu por marketing. Cresceu porque o percurso funciona. Em 1997, Vanderlei Cordeiro de Lima correu aqui em 27min59s e chegou tão à frente que atravessou a linha de chegada fazendo o aviãozinho em zigue-zague, como alguém que sabe que o resultado já estava definido quilômetros antes. Marilson Gomes dos Santos venceu seis vezes nesse mesmo asfalto. Em 2018, o ugandês Maxwell Kortek Rotich cruzou em 27min22s, um dos melhores 10km do mundo naquela temporada, estabelecido na orla santista. O percurso 100% plano, com retas longas e os dois últimos quilômetros na praia, não tem como mentir: ele entrega PR ou expõe o que faltou no treino. Não existe meio-termo em asfalto que não sobe nem desce.
A 40ª edição acontece neste domingo, 17 de maio, com mais de 24 mil atletas descendo a Serra do Mar para largar na Rua João Pessoa, no centro histórico de Santos, e chegar na Praça das Bandeiras, no Gonzaga. O percurso percorre as avenidas do centro em direção à orla, canais, bairros que têm no esporte uma identidade forte, e o visual do Porto de Santos, o maior da América Latina, nos arredores do traçado. Para o corredor que vem de fora e chega na sexta, a cidade que aparece antes da largada já é parte da experiência.
A armadilha da Tribuna começa na largada. O pelotão é grande, a adrenalina é real, o percurso é plano e o corredor que abre o passo nos primeiros 3km chega ao km 8 sem o que precisa para a reta da orla. A estratégia que funciona aqui é a mesma de qualquer prova plana com público: sair abaixo do pace de prova, estabilizar no meio e abrir tudo quando a praia aparecer. Temperatura de maio em Santos oscila entre 18°C e 22°C, umidade alta do litoral, condição boa para performance, mas que exige atenção com a estratégia de carboidrato.
Em 10km, a dextrose é a escolha certa: absorção imediata, sem trânsito gastrointestinal, energia disponível antes do km 5 sem o risco de pesada no estômago que a maltodextrina pode causar em esforços curtos e intensos. Quem entende a diferença entre os dois carboidratos chega na reta da orla com combustível, quem ignora isso chega pesado. O entreesportes já destrinchou essa escolha em detalhes em nossa análise completa sobre dextrose e maltodextrina — o que separa os dois carboidratos que todo atleta usa mas pouca gente entende de verdade.
O campo de elite desta edição confirma o que o percurso santista representa: trinta vitórias internacionais na história da prova, 26 delas de atletas africanos, 21 quenianas. Não é coincidência é o percurso atraindo quem precisa de condição real de tempo. Para o corredor amador, isso se traduz numa oportunidade concreta: largar no mesmo asfalto onde esses tempos foram estabelecidos, com a mesma pressão de ritmo que a reta plana impõe, é um dos poucos momentos no calendário paulista onde o relógio mostra exatamente o quanto o treinamento valeu, sem variável de altimetria para suavizar a leitura.
O que a Tribuna entrega ao corredor que entende o que está em jogo vai além do cronômetro. A cidade que recebe a prova há quarenta anos tem uma relação com o esporte que o turista convencional não enxerga. O bonde histórico inaugurado em 1909 ainda percorre a orla e passa por dentro do traçado que 24 mil atletas vão usar no domingo. A praia que serve de palco para os dois últimos quilômetros é a mesma onde a cidade treina todo fim de semana, Santos tem atletismo no DNA desde antes da Tribuna existir. Quem chega na sexta e faz uma rodagem leve na orla no sábado cedo vai largar no domingo com uma camada a mais de contexto que o corredor que chegou só para correr não tem.
Para o corredor que vem de fora, Santos funciona melhor com dois dias de antecedência. O bairro do Gonzaga, onde a prova chega , concentra as melhores opções de hospedagem a menos de 500 metros da linha de chegada. O Mercado Municipal de Santos, a poucos quarteirões da largada, é a parada obrigatória na sexta: peixe fresco, pastel de camarão e o ambiente de uma cidade que vive do mar de um jeito que São Paulo nunca vai entender. O corredor que trata a viagem para Santos como parte do projeto — não como logística a resolver, vai embora com a medalha e com a cidade. E provavelmente já planejando a 41ª edição antes de subir a serra de volta.
A Tribuna chega aos 40 anos sem precisar se reinventar. O percurso é o mesmo, o asfalto é o mesmo, a orla do Gonzaga é a mesma. O que muda são os 24 mil corredores que chegam todo ano porque sabem o que esse traçado entrega e porque há provas que o atleta coloca no calendário não para descobrir se consegue, mas para confirmar o quanto evoluiu. Domingo, a Serra do Mar desce para Santos. E Santos abre as ruas para deixar isso acontecer.
entreesportes.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Nome oficial | 10 KM Tribuna — 40ª Edição |
| Data | Domingo, 17 de maio de 2026 |
| Local | Santos/SP |
| Largada | Rua João Pessoa, 129 — Centro |
| Chegada | Av. Presidente Wilson com Av. Ana Costa — Praça das Bandeiras, Gonzaga |
| Percurso | 100% plano — 2km finais na orla |
| Distâncias | 10 km corrida + 10 km caminhada |
| Primeira largada | PCD competitiva — 6h45 |
| Última largada | Caminhantes — 8h35 |
| Participantes | Mais de 24 mil inscritos |
| Retirada de kit | 15 e 16/05 — Clube Vasco da Gama, Av. Rei Pelé, 33 |
| Recorde masculino | 27min22s — Maxwell Kortek Rotich (Uganda, 2018) |
| Recorde feminino | 30min57s — Paskalia Kipkoech (Quênia, 2012) |
| Site oficial | atribuna.com.br |
